Química orgânica –
Vinicius de Moraes
Há mulheres altas e
mulheres baixas; mulheres bonitas e mulheres feias; mulheres gordas e mulheres
magras; mulheres caseiras e mulheres rueiras; mulheres fecundas e mulheres
estéreis; mulheres primíparas e mulheres multíparas; mulheres extrovertidas e
mulheres inconsúteis; mulheres homófagas e mulheres inapetentes; mulheres
suaves e mulheres wagnerianas; mulheres simples e mulheres fatais; - mulheres
de toda sorte e toda sorte de mulheres no nosso mundo de homens. Mas, do que
pouca gente sabe é que há duas categorias antagônicas de mulheres cujo
conhecimento é da maior utilidade, de vez que pode ser determinante na relação
desses dois sexos que eu, num dia feliz, chamei de "inimigos
inseparáveis". São as mulheres "ácidas" e as mulheres "básicas",
qualificação esta tirada à designação coletiva de compostos químicos que, no
primeiro caso, são hidrogenados, de sabor azedo; e no segundo, resultam da
união dos óxidos com a água e devolvem à tintura do tornassol, previamente
avermelhada pelos ácidos, sua primitiva cor azul. Darei exemplos para evitar
que os ínscios e levianos, ao se deixarem levar pela mania de classificar, que
às vezes resulta de uma teoria paracientífica, cometam injustiças irreparáveis.
Pois a verdade é que mulheres que podem parecer em princípio
"ácidas", como as louras (conf. com a expressão corrente:
"branca azeda", etc.), podem apresentar tipos da maior basicidade.
Não é possível haver mulher mais "básica" que Marylin Monroe,* por
exemplo; enquanto que Grace Kelly, que muita gente pode tomar por
"básica", é a mulher mais cítrica dos dias que correm. Podia-se fazer
com Grace Kelly a maior limonada de todos os tempos, e nem todo o açúcar de
Cuba seria capaz de adoçá-la. De um modo geral, a mulher "ácida" é
sempre bela, surpreendente mesmo de beleza. É como se a Natureza, em sua eterna
sabedoria, procurasse corrigir essa hidrogenação excessiva com predicados que a
façam perdoar, senão esquecer pelos homens. Porque uma coisa eu vos digo: é
preciso muito conhecimento de química orgânica para poder distinguir uma
"básica" ou uma "ácida" pela cara. A mulher
"ácida" tem uma consciência intuitiva da sua química, e não é incomum
vê-la querer passar por "básica" graças ao uso de maquilagem apropriada
e outros disfarces próprios à categoria inimiga. Como um homem prevenido vale
por dois, dou aqui, por alto, noções geográficas e fisiológicas dos dois tipos,
de modo que não chupe tamarindo aquele que gosta de manga, e vice-versa. À vol
d'oiseau1 se pode dizer que as regiões escandinavas, certas regiões balcânicas
e a América do Norte são infestadas de mulheres "ácidas", no caso da
América, sobretudo o Sul e Middle West2 , onde há predominância do tipo one
hundred per cent American3 . Ingrid Bergman é uma "ácida escandinava"
típica e é preciso ir procurar uma Greta Garbo para achar a famosa exceção
comum a toda a regra. As Ilhas Britânicas em si não são "ácidas"; mas
há que ter cuidado com certas regiões da Escócia e da Irlanda, onde o limão
come solto. Na França, com exceção de Paris e Île-de-France4 , e naturalmente
da Côte d'Azur5 , reina uma certa acidez, sobretudo na Bretanha, Alsácia e
Normandia. A Itália é "básica", tirante, talvez, o Veneto e a
Sicília. Os Países Baixos são o que há de mais "ácido", Flandres
ainda mais que a região fiamenga. A Alemanha é à base do araque. Há, aí, que ir
mais pelo padrão psicofisiológico que pelo geográfico. Desconfie-se, em
princípio, de mulheres com muita sarda ou tache-de-rousseur6 . Há exceções, é
claro; mas vejam só Betty Davis, * * que é de dar dor na dentina. É bom também
andar um pouco precavido com mulheres, louras ou morenas, levemente dentuças.
Acidez quase certa. Felizmente, a grande maioria é constituída de
"básicas", para bem de todos e felicidade geral da nação. Sobretudo
no Brasil, felizmente liberto, desde alguns meses, da sua "ácida número
um" - aliás de outras plagas, diga-se, o peito inchado do mais justo
orgulho nacional.
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