terça-feira, 14 de agosto de 2018

RECUPERAÇÃO DE QUÍMICA - PROFESSOR: FERNANDO VALLE (VESPERTINO)

Conteúdos para a Prova de Recuperação de Química
(Professor: Fernando Valle)
  • Propriedades que definem a matéria - propriedades físicas: densidade, temperaturas de fusão e de ebulição e a solubilidade.
  • Classificação dos materiais - substâncias puras e misturas: diagramas de mudança de estado de agregação (estado físico), fases e componentes de uma mistura, separação de misturas.
  • Notações químicas: símbolos e nomes dos principais elementos químicos - fórmulas das substâncias.
BIBLIOGRAFIA: Volume 1 de qualquer edição da Química. 

AULA DE REVISÃO: 27/08, às 10h.

DATA DA PROVA DE RECUPERAÇÃO: 28/08, às 9h (sala D5).

OBRA DO PAS - PORTUGUÊS - MATUTINO


QUÍMICA ORGÂNICA (vinicius de moraes)

Há mulheres altas e mulheres baixas; mulheres bonitas e mulheres feias; mulheres gordas e mulheres magras; mulheres caseiras e mulheres rueiras; mulheres fecundas e mulheres estéreis; mulheres primíparas e mulheres multíparas; mulheres extrovertidas e mulheres inconsúteis; mulheres homófagas e mulheres inapetentes; mulheres suaves e mulheres wagnerianas; mulheres simples e mulheres fatais; - mulheres de toda sorte e toda sorte de mulheres no nosso mundo de homens. Mas, do que pouca gente sabe é que há duas categorias antagônicas de mulheres cujo conhecimento é da maior utilidade, de vez que pode ser determinante na relação desses dois sexos que eu, num dia feliz, chamei de "inimigos inseparáveis". São as mulheres "ácidas" e as mulheres "básicas", qualificação esta tirada à designação coletiva de compostos químicos que, no primeiro caso, são hidrogenados, de sabor azedo; e no segundo, resultam da união dos óxidos com a água e devolvem à tintura do tornassol, previamente avermelhada pelos ácidos, sua primitiva cor azul.

Darei exemplos para evitar que os ínscios e levianos, ao se deixarem levar pela mania de classificar, que às vezes resulta de uma teoria paracientífica, cometam injustiças irreparáveis. Pois a verdade é que mulheres que podem parecer em princípio "ácidas", como as louras (conf. com a expressão corrente: "branca azeda", etc.), podem apresentar tipos da maior basicidade. Não é possível haver mulher mais "básica" que Marylin Monroe,* por exemplo; enquanto que Grace Kelly, que muita gente pode tomar por "básica", é a mulher mais cítrica dos dias que correm. Podia-se fazer com Grace Kelly a maior limonada de todos os tempos, e nem todo o açúcar de Cuba seria capaz de adoçá-la.

De um modo geral, a mulher "ácida" é sempre bela, surpreendente mesmo de beleza. É como se a Natureza, em sua eterna sabedoria, procurasse corrigir essa hidrogenação excessiva com predicados que a façam perdoar, senão esquecer pelos homens. Porque uma coisa eu vos digo: é preciso muito conhecimento de química orgânica para poder distinguir uma "básica" ou uma "ácida" pela cara. A mulher "ácida" tem uma consciência intuitiva da sua química, e não é incomum vê-la querer passar por "básica" graças ao uso de maquilagem apropriada e outros disfarces próprios à categoria inimiga. 

Como um homem prevenido vale por dois, dou aqui, por alto, noções geográficas e fisiológicas dos dois tipos, de modo que não chupe tamarindo aquele que gosta de manga, e vice-versa. A vol d'oiseau se pode dizer que as regiões escandinavas, certas regiões balcânicas e a América do Norte são infestadas de mulheres "ácidas", no caso da América, sobretudo o Sul e Middlewest, onde há predominância do tipo one hundred per cent American. Ingrid Bergman é uma "ácida escandinava" típica e é preciso ir procurar uma Greta Garbo para achar a famosa exceção comum a toda a regra. As Ilhas Britânicas em si não são "ácidas"; mas há que ter cuidado com certas regiões da Escócia e da Irlanda, onde o limão come solto. Na França, com exceção de Paris e Île-de-France, e naturalmente da Côte d'Azur, reina uma certa acidez, sobretudo na Bretanha, Alsácia e Normandia. A Itália é "básica", tirante, talvez, o Veneto e a Sicília. Os Países Baixos são o que há de mais "ácido", Flandres ainda mais que a região flamenga. A Alemanha é à base do araque. Há, aí, que ir mais pelo padrão psicofisiológico que pelo geográfico. 
Desconfie-se, em princípio, de mulheres com muita sarda ou tache-de-rousseur. Há exceções, é claro; mas vejam só Betty Davis, * * que é de dar dor na dentina. É bom também andar um pouco precavido com mulheres, louras ou morenas, levemente dentuças. Acidez quase certa.
Felizmente, a grande maioria é constituída de "básicas", para bem de todos e felicidade geral da nação. Sobretudo no Brasil, felizmente liberto, desde alguns meses, da sua "ácida número um" - aliás de outras plagas, diga-se, o peito inchado do mais justo orgulho nacional. 
* O autor congratula-se consigo mesmo de haver escrito, há dez anos, urna verdade que resulta em tão graciosa homenagem póstuma à grande estrela americana. 
**Poderia ser substituída, atualmente, pela atriz Doris Day

sábado, 11 de agosto de 2018

POÉTICA - 
Manuel Bandeira.
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

OBRAS DO PAS. PORTUGUÊS

senhores, alunos, esses são os textos..PAS. verifiquem quais faltam para concluirmos.
Leituras
  1. * Vidas secas, de Graciliano Ramos
  2. * Constituição Federal – Título II, capítulo IV, artigos 14 a 16; capítulo V, artigo 17 e Título IV, capítulo I, seções I a V, artigos 44 a 56
  3. * Amor, de Clarice Lispector
  4. * O burrinho pedrês, de Guimarães Rosa
  5. * Química orgânica, de Vinícius de Moraes
  6. * O apanhador de desperdícios, de Manoel de Barros
  7. * Psicologia de um vencido, de Augusto dos Anjos
  8. * Poética, de Manuel Bandeira
  9. * O Homem; As Viagens, de Carlos Drummond de Andrade
  10. * Elevador do filho de Deus, de Elisa Lucinda
  11. * Zwkrshjistão, de Bruno Palma 
  12. * O manifesto comunista em cordel

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

VEM AÍ O NOSSO 4º FESTIVAL DE MÚSICA 
E O NOSSO 2º CANTARE - 2018

INSCRIÇÕES ABERTAS !!!!!!!!


terça-feira, 7 de agosto de 2018

OLÁ, GALERA DO CENTRÃO !!!!!

Vejam o Cronograma para as atividades da ESCOLA INTEGRAL

OBSERVAÇÃO: 
O Almoço será servido de segunda à sexta a partir das 12 horas


BURRINHO PEDRÊS.

Senhores (as) alunos (as), preciso que leiam o conto AMOR  e em seguida conto O BURRINHO PEDRÊS, este são 36 pag...rsrsrsr aproveitem para ler fim  de semana. debate semana que vem..
debate do conto AMOR  turmas de  quarta a sexta...

CONTO: AMOR -


Amor (Clarice Lispector )

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.

Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.

 Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

 Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

 Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.
Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.

 Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.
 Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.
De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.

Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.

 Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.

 Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.
Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

 As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.
Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.

 Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

 Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.

 Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?

 Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

 Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.

 Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.
Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.

 Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.

 Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.
Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

 Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.
— O que foi?! gritou vibrando toda.
 Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.
Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.
— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.
Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
 Acabara-se a vertigem de bondade.
 E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

Texto extraído no livro “Laços de Família”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998, pág. 19, incluído entre “Os cem melhores contos brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, seleção de Ítalo Moriconi.
Clarice Lispector: tudo sobre a autora e sua obra em "Biografias".

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

EJA CED 06 CEILÂNDIA -MATRÍCULAS ABERTAS


MATRÍCULAS NOVAS PARA O 2º SEMESTRE 2018 PARA O TERCEIRO SEGMENTO(ENSINO MÉDIO).
DOCUMENTOS NECESSÁRIOS: RG(COM CÓPIA)/CPF(COM CÓPIA), FOTO 3X4, COMPROVANTE DE ENDEREÇO(ÁGUA OU LUZ) E DOCUMENTOS ESCOLARES(HISTÓRICOS - ENSINO FUNDAMENTAL E ENSINO MÉDIO - CURSANDO)

QNP16 ÁREA ESPECIAL - P SUL- AVENIDA "P2"
(PRÓXIMA A PAPELARIA ESCRITA)

MAIORES INFORMAÇÕES: 3901-6909(SECRETARIA)

PAS 2018 - PERÍODO DE INSCRIÇÕES


CED 06 INFORMA
PAS oferecerá 4,2 mil vagas em 2018

Edital prevê provas em dezembro e inscrição entre 11 e 25 de setembro

Foram publicados os editais das três etapas do Programa de Avaliação Seriada (PAS), promovido pela Universidade de Brasília (UnB). Será oferecido um total de 4.222 vagas – 2.112 para o primeiro semestre e outras 2.110 para o segundo semestre. As INSCRIÇÕES poderão ser feitas entre os DIAS 11 E 25 DE SETEMBRO pelo site www.cespe.unb.br/pas. A previsão é que as provas sejam aplicadas em 3 de dezembro.

Neste ano, as vagas serão destinadas aos alunos que iniciaram a seleção no subprograma 2015 e, portanto, estão no terceiro ano do ensino médio. Os alunos que se inscreverem na fase final deverão disponibilizar uma fotografia individual, colorida, tirada nos últimos seis meses e em fundo branco. A inscrição somente será concluída após o envio da foto.

A TAXA DE INSCRIÇÃO para todas etapas é de R$ 120,00 mas poderão ser pedidas ISENÇÕES, para os candidatos que se enquadrarem nas possibilidades previstas nos editais. Os candidatos da primeira e segunda etapas poderão ser isentos caso estejam inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico) e forem de família de baixa renda. Os alunos com renda familiar de até 1,5 salário mínimo por pessoa e frequência acima a 75% na escola.

Outras informações podem ser consultadas no site do Cespe: www.cespe.unb.br ou pelo telefone 3448 0100, que atende de segunda à sexta, das 8h às 19h.



A DIREÇÃO.
Confira aqui os editais:

1° Etapa: goo.gl/Vjy4RM (retificação da data provável da prova: 3 de dezembro de 2017, às 13 horas)

2° Etapa: goo.gl/ZPiKCV

3° Etapa: goo.gl/Qxurrp

Postagem: Romero Almeida (Supervisor Pedagógico)
Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/selecao/2017/09/05/Selecao_Interna,623640/pas-oferecera-4-2-mil-vagas-em-2018.shtml

sábado, 30 de junho de 2018

I Mostra de Teatro do CED 06 Ceilândia


No próximo sábado, 30/06, encerra a 1ª Mostra de Teatro do CED06 de Ceilândia.

O Centro 06 de Ceilândia promove nos dias 16, 17 e 30 de junho de 2018 a 1ª Mostra de Teatro do Centro Educacional 06 de Ceilândia no Teatro de Bolso Valmir Carvalho.
Essa ação cultural e pedagógica compõe o projeto político pedagógico do Ced 06 de Ceilândia, faz parte da Educação Integral que contém a CiaCalmem companhia de Teatro.
A Cia Calmem é, à priori, fruto escolar. A companhia nasceu de oficinas de teatro semanais ministradas pelo diretor da companhia e atual diretor do Centro Educacional 06, Jefferson Lobato, como uma das modalidades ofertadas pelo projeto de Educação Integral da escola. Atualmente, ainda conduzido por Jefferson Lobato, a companhia-projeto opera com baixíssimo orçamento, conta com alunos e ex-alunos e é aberta a comunidade.
A referida mostra de teatro é não competitiva, tem como tema “Somos Todos Diversos” e tem o objetivo de descentralizar a arte ao promover oficinas de teatro e circular espetáculos teatrais desde 2014. Por essa Mostra Teatral circularão mais de 1000 estudantes e comunidade em geral nas 14 apresentações.

Companhias participantes da 1ª Mostra de Teatro do CED06 de Ceilândia

A referida Mostra Teatral terá entrada gratuita e será composta por espetáculos do Distrito Federal e de Goiás.


Serviços
A Mostra será composta por espetáculos do Distrito Federal e de Goiás com a seguinte composição:
Sábado, 16 de junho
Horário Espetáculo
8h30 Cenas Curtas: Lúcia e Antônio.
10h00 Desaparecidos.
16h00 Entre Letras.
19h00 Cenas Curtas: Lúcia e Antônio.
20h20 Desaparecidos.
Domingo, 17 de junho
Horário Espetáculo
8h30 Cenas Curtas:  Vou por aí e Fragmentos de Gota D'água.
10h00 Desaparecidos.
19h00 Cenas Curtas:  Vou por aí e Fragmentos de Gota D'água.
20h30 Desaparecidos.
Sábado, 30 de junho
Horário Espetáculo
8h30 Desejo falar.
10h00 Desejo falar.
16h00 Desejo falar.
19h30 Cia burlesca.
Local: Teatro de Bolso Valmir de Carvalho do Centro Educacional 06 de Ceilândia.
Endereço: QNP 16, área especial, P Sul, Ceilândia-DF.
Contato: 3901-6908.


O Espetáculo Desejo Falar



Foto de Day Nunes


O espetáculo Desejo Falar, peça autoral da Cia Calmem, foi concebido a partir da criação coletiva. Sendo o segundo espetáculo realizado pela companhia, ele nasceu da pesquisa e histórias de seus atores criadores. Usando os “gritos presos” como mote inicial, cada integrante da referida companhia produziu um texto poético que expressa algumas das coisas que desejavam e precisavam exprimir. Após quatro meses de pesquisa e montagem, Desejo Falar estreia como resultado da exploração cênica desses textos e da dedicação de todos os envolvidos.
Sinopse: Sete humanos enclausurados em sete prisões particulares e destoantes entre si veem-se diante da oportunidade única de falar tudo aquilo que fica sufocado entre as grades de suas celas anômalas: desejam falar. Um por um, eles exprimem o que carregam sobre suas identidades, suas dores, seus sonhos e as nuances pelas quais seus corações absorvem o mundo no ápice de suas juventudes.
Ficha Técnica
Coordenador do projeto e Diretor do espetáculo: Jefferson Lobato.
Produção Cultural: Valéria Brito.
Técnico de som e luz: Ismael Cavalcante
Elenco do espetáculo:
Day Nunes
Jorge Matos
Leo Rabi
Alice Vieira
Lucas Cake
Geeh Souza
Malu Matias
Arte Gráfica: Mônica Félix e Kadu Marques.
Apoio e coordenação da educação integral: Kleber Caverna.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

GABARITO DA AVALIAÇÃO MULTIDISCIPLINAR - VESPERTINO (2º BIMESTRE)

ESTUDANTES DO TURNO VESPERTINO,

JÁ PODEM CONFERIR O GABARITO DA AM!!!

ENTREGA DOS TRABALHOS DE MATEMÁTICA - PROFESSORA LILIANA


 COMUNICADO

          A entrega dos trabalhos de matemática da professora Liliana, deverão ser entrgues na segunda-feira dia 02/07 no balcão da escola de 8:00 as 9:00. A prova da dependência de matemática acontecerá no pátio da escola, no dia 03/07 as 8:15.

ALUNOS EM DEPENDÊNCIA EM FÍSICA - PROF. MARCOS


ALUNOS EM DEPENDÊNCIA EM FÍSICA

Atividade disponível para impressão na Fox Print a partir de 29/06/2018

Entrega:  Somente em mão do professor.
                até dia 04/07/2018 - para os alunos que vão para o EJA
                até dia 03/08/2018 - para os demais alunos 

Atenciosamente, Marcos Gomes, professor de Física

terça-feira, 26 de junho de 2018

Atividade Avaliativa - Sociologia - Matutino - Prof. Osvaldo Lima

E ai galera do CED06!
Segue o link para a ATIVIDADE AVALIATIVA ONLINE. É só clicar no link correspondente a sua série e começar. Você terá até o dia 28/06 para responder aos desafios. Não deixe para a última hora.

2º ABCDE

3º AB

segunda-feira, 25 de junho de 2018

GABARITO DA AM DO 1º DIA 2º BIMESTRE - MATUTINO




GABARITO DA AM DO 1º DIA DO 2º BIMESTRE - MATUTINO

1º DIA

01
B
02
D
03
A
04
C
05
D
06
B
07
C
08
A
09
A
10
D
11
B
12
C
13
C
14
A
15
D
16
B
17
D
18
A
19
C
20
B
21
B
22
A
23
D
24
C
25
A
26
C
27
B
28
D
29
A
30
B
31
C
32
D
33
A
34
A
35
B
36
D

OBS: A QUESTÃO DE Nº 16 DE QUÍMICA DO 3C ao 3I FOI ANULADA.